quinta-feira, 2 de julho de 2015

Fábrica da Fiat em Betim, Minas Gerais, paralisa produção por 10 dias

Medida atinge 73% dos trabalhadores da fábrica; operários da unidade temem redução de direitos.
Por Rafaella Dotta
De Belo Horizonte (MG)

Os trabalhadores da Fiat Betim parecem estar com medo. Procurados pela reportagem, negaram-se a falar sobre a situação da fábrica, explicando que podiam ser repreendidos. Medo de falar com jornalistas, medo de perderem direitos, medo de serem demitidos.
A partir do dia 1º de julho, funcionários da fábrica Fiat em Betim entrarão em férias coletivas e não irão trabalhar por 10 dias. A medida atinge 12 mil trabalhadores diretos , ou seja, 73% dos funcionários, segundo a própria empresa.
Esta é a terceira parada da Fiat em Betim neste ano. As duas primeiras, em março e maio, atingiram 2 mil funcionários. A justificativa é a mesma nas três ocasiões: “ajustar a produção à demanda de mercado”. No entanto, a paralização da produção não será um “bônus” aos empregados. Os dias não trabalhados serão descontados das férias regulares ou serão pagos em dias de folga.
Recordes de lucro
Segundo o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Betim e Região, é preciso ter cuidado, pois as empresas usam os momentos de “polêmica econômica” para negociar redução de salário e de direitos. “A Fiat vem acumulando recordes de lucro. Com certeza não é preciso demitir ou diminuir salário”, afirma João Alves de Almeida.
A Fiat teve a segunda maior receita operacional líquida de Minas Gerais, em 2014, representando R$ 23 milhões. Ficou também na quarta posição na lista das empresas mineiras com maior índice de exportação, arrecadando R$ 855 milhões. As informações são do 4º boletim trimestral da Fundação João Pinheiro, de 2014.
De acordo com João Alves, é preciso ter paciência, pois a empresa deve retomar seu crescimento em breve. “Tem um investimento grande da Fiat aqui em Betim, na área de pintura, que era um gargalo no passado. Há por parte deles uma perspectiva de retomada. Não sabemos se é no próximo semestre ou mais pra frente”, pondera.
Estrangulamento
Inúmeras empresas mineiras estão tentando medidas para ajuste na sua produção. É o caso da Usiminas (Ipatinga), da Vale (Brumadinho e Sarzedo), da Bozel (São João del-Rei), Fiat (Betim), Mercedes-Benz (Juiz de Fora), entre outras. As medidas mais usadas são as férias coletivas ou o chamado lay-off, que é a suspensão temporária do contrato de trabalho.
“A situação econômica e das empresas não está boa, com uma expectativa negativa para os empregos e negócios em geral. Faz o futuro, que é sempre incerto, ficar ainda mais”, alerta Airton dos Santos, economista do Departamento Intersindical de Economia e Estatística (Dieese).
Ele explica que está sendo discutida, entre centrais sindicais e empresas, uma política nacional para proteção de empregos. “Estamos em uma situação emergencial e para o trabalhador seria mais interessante manter o posto, mesmo com a renda reduzida, do que perder o emprego”, acredita.
Para a Central dos Trabalhadores do Brasil (CTB) a medida não é boa, ainda que seja para “salvar os dedos”. As principais propostas da CTB são a redução da jornada de trabalho sem diminuir o salário e a proibição da rotatividade nos empregos. Esta última funcionaria como “multa” a empresas que demitem funcionários que ganham mais, para contratar funcionários novos, que recebem salários menores.
“O Brasil já tem salários muito baixos, a grande maioria recebe menos de três salários mínimos. Toda medida de diminuição significa arrocho e precarização. O salário tem importância não só para o trabalhador, mas para o crescimento da economia interna”, defende Nivaldo Santana, vice-presidente da CTB.
Perspectivas
Segundo o economista do Dieese, há projeções de que esta situação econômica dure até o final deste ano. “Só a partir de 2016 vamos ter uma ideia mais clara se os ajustes que o governo federal está fazendo vão ter resultados, melhorando as contas públicas e fazendo a economia reagir”.

POSTADO ORIGINALMENTE EM:
http://www.brasildefato.com.br/node/32361

Nenhum comentário:

Postar um comentário